segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Escrever.

Escrever.
Com coração partido
Com coragem restaurada
Com alegria e tristeza
Mesclando e vomitando palavras
Escrever.
Sobre a noite
Sobre o frio
Sobre a madrugada
Sobre a alvorada
Escrever.
Sonhando, amando, orando, pedindo, implorando.
Escrever.
Como se fosse a última coisa que se deve fazer.

***
"Era uma vez", como costumam começar histórias desse tipo, uma criança com não mais de 6 anos segurando um lápis na mão. Em sua frente, um papel. A criança então pôs-se a escrever, sem parar. Um amigo se aproximou e perguntou:
- O que tanto escreve?
- Nada, só rabiscos.
- Então por que finge que escreve?
- Porque um dia quero ser um escritor famoso! E quando esse dia chegar, minhas mãos precisam estar preparadas. Aí serei um homem criativo, e finalmente vou formar palavras bonitas!
- Palavras bonitas?
- É, você sabe... o que vem depois do "era uma vez".
Os dias viraram semanas, que se acumularam em anos. O garoto já homem feito, se encontrava numa sala de aula. Era um professor de ensino fundamental bastante querido. Dia desses seu amigo de infância resolveu visitá-lo, havia se tornado um advogado bem sucedido.
- Ora, ora... não era você que queria ser escritor? E cá estamos...
- Sim. Não vê que realizei meu sonho?
-Seu sonho? O que vejo é um professor preso numa sala minúscula.
- Você não está entendendo... eu estou escrevendo.
O outro estava confuso. Piscou os olhos algumas vezes, sentando-se no birô.
- Não vejo nenhum texto seu sendo publicado, então...
- Não falei que escrevia isso. Eu escrevo algo mais grandioso.
- Como o quê?
O professor sorriu ternamente, enquanto encarava as cadeiras vazias.
- Ajudo a escrever o futuro dessas crianças, onde muitas sonham o que sonhei.
- Mas... e onde estão as palavras bonitas?
Demorou um pouco, mas após um longo e prazeiroso suspiro, respondeu.
- Pode parecer clichê... mas se eu for o profissional que imagino ser, estão todas guardadas dentro dos meus alunos. E cabem a eles a decisão de seguí-las ou não.

***
Textos tronxinhos. Estou sem criatividade ultimamente. x.xV Mas sabe, fiquei com vontade de escrever isso. Meu curso tem sido constantemente posto de lado por alguns amigos meus, eles simplesmente não levam a sério. Mas eu não ligo, sabe? XD Só quis escrever! Precisava atualizar essa joça! (y)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nada Sei..

Erro por tentar ou talvez por não tentar direito. Penso uma coisa e escrevo outra coisa completamente diferente. Post retrasado prometi mudar isso aqui e começar a postar coisas mais felizes, mas não consegui. Sou uma errante pós graduada, eu sei.
Me considero uma boa amiga, sabe? Consigo escutar, me ponho no lugar de quem eu prezo como pessoa.
Também sou uma boa filha. Não desrespeito, não saio sem avisar, não me entrego a nenhum vício.E sou uma boa namorada. Meu pensamento só está em um cara, e nunca discutimos como um casal "normal". Preferimos conversar e esclarecer tudo sempre.
Ainda sim, não sou perfeita. Continuo errando, e errando, e errando...
Faz parte da vida errar. Pelo menos eu noto meus erros. O problema mais sério é não saber encará-los, lidar com eles.
Bem, como faz tempo que eu não apareço por aqui, vou deixando duas coisinhas. A primeira fiz para meu namorado, o Douglas, um pseudo-poema ao notar que não estava dando o carinho que ele merecia. Mas aprendi minha lição. u.u'/
Quem me conhece, não vai acreditar que fui eu quem escreveu. Sim, estou me tornando uma "menina". (y) Cedo ou tarde tinha que começar a aceitar o fato de eu ter uma vagina, não é?
Só estou postando por ele ter permitido. E sim, estou apaixonada. (y)
E o segundo texto, é apenas mais um devaneio de minha mente insana. Bem a minha cara, logo vão entender o motivo. XD''

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Confesso que não estou buscando.
Confesso que não estou entendendo.
Confesso que estou distante.
Confesso que preciso ver.
Confesso que me sinto paralítica.
Confesso que estou impaciente.
Confesso que ando sensível demais.
Confesso que sou infantil demais.
Confesso que estou cansada...

Confesso também que preciso de um empurrãozinho para abrir os olhos.
Preciso amar sem medo de errar.
Preciso não esperar nada em troca.
Preciso aprender a surpreender.
Preciso me importar quando menos precisam.
Porque...


"Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria..."

Confesso, por fim
Que preciso aumentar minha cota de "eu te amo's".

--

Seis anos, uma bela idade. Ele caminhava pelo parquinho com passos apressados, tudo era tão imenso perto dele. Ele olhava para os gigantes presentes e tentava entender porque não tinha um gigante só dele. Seu senso crítico havia aflorado cedo demais, tanto que avaliava o comportamento dos que estavam ali.
Um homem gritando com uma criança. A criança chorava.
Uma mulher batendo em uma criança. A criança chorava.
Um jovem puxando a orelha de uma criança. A criança chorava.
E um senhor sem atormentar criança alguma, apenas observava.
Adultos pareciam monstros. Tentava encarar algum, mas só via bicho papão. Sentia medo. Mas por algum motivo inexplicável, não sentia medo do velho solitário. "Quer ser meu gigante?", o menor perguntou. O velho sem acreditar, apenas sorriu terno, assentindo com a cabeça. Levou-o para casa.
E adivinha quem era o verdadeiro bicho papão?
.
.
.


Aos quinze anos, a criança conseguiu fugir, deixando para trás um corpo estendido e sem vida. A criança chorava.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Expectativas.

Expectativas. Ninguém devia ter expectativas para nada. É doloroso demais quando não dá certo e você fica presenciando de braços cruzados o saquinho de esperança que você tem tomado conta tão bem, deixar escapar cada grãozinho por um furo que você nunca havia notado. Mas depois de uma conversa esclarecedora, é só pôr uma fita adesiva no buraco e recolher grão por grão.

***

Olhando pela janela de seu quarto, o rapaz pensava. Não entendia muitas coisas, mas tentava entendê-las. O céu nublado refletia fielmente seu estado de espírito, o que o ajudava ainda mais em seus devaneios. Ele era um rapaz jovem, não havia motivos para sentir-se assim, tão perdido. Não merecia sofrer dessa forma. Sente o celular vibrar no bolso da calça jeans, e resolve atender.

- Alô? Oi, amor. Estava pensando em você agora. – Sorria, sincero – Não estou fazendo nada em especial... quero apenas te ver, segurar sua mão. – Parecia um pouco mais triste agora – É horrível não te ter por perto... o que? Te ver agora? Seria uma ótima idéia!

Desligou o aparelho, guardando-o novamente no bolso. Ansioso, sequer trocou de roupa, afinal, não estava desarrumado. Saiu de casa sem avisar os pais, e foi até o parque, onde costumavam se encontrar. Recostou-se no tronco de uma árvore, e pôs-se a sonhar. É, vivia num mundo de sonhos. Num mundo utópico. Num mundo que poucos o entendem, mas quer saber? A minoria faz a diferença.

- Cheguei. – Afirmou uma voz relativamente rouca, perante a ele. – Desculpa, estou atrasado.
- Não tem problema... o que importa é que você está aqui. – Respondeu o rapaz sem rodeios.

Abraçaram-se. Dois belos rapazes, no auge de seus 17 anos, continuavam a demonstrar total carinho um pelo outro. E mesmo não fazendo nada dito como estranho, alguns transeuntes ainda lançavam-lhe olhares maldosos. Afeto entre duas mulheres era concebido, mas entre dois homens não? Interessante.

- Queria beijá-lo agora...
- Por que não o faz?
- Porque não quero ser expulso do parque por aquele guarda que não tira o olho da gente.
- Então... aqui. – Afasta-se, estendendo a mão – Segure-a, e vamos entrelaçar nossos dedos!
- Não acha um pouco ousado?
- Prefere o beijo?
- ... – Sorriu – Sim, prefiro.

A aproximação. O toque. O leve roçar de lábios... antes mesmo que prolongassem aquele beijo, o tal guarda homofóbico os expulsa de lá. No mesmo parque, um casal de héteros praticamente se comiam em um banco qualquer. Onde está a justiça? Contentaram-se, deram de ombros. E foram para a casinha que construíram, só para encontros. Quando começariam a vê-los como um casal normal, e não como uma anomalia? Quando um mero selinho apaixonado se tornaria demonstração de afeto, e não sensacionalismo?

Não sabiam. Mas, a esperança de um “mundo melhor” (ainda que clichê) existia. Por enquanto, embriagavam-se com a tal da “expectativa” sem esquecer o amor mútuo e a cumplicidade que era transmitida entre o casal.

domingo, 30 de agosto de 2009

Contramão Contrariada. [?]


Quanto mais angustiados estamos, mais inspirados ficamos. Isso me faz pensar: seríamos seres naturalmente masoquistas? Ainda aqueles que afirmam não gostar de sentir dor, há momentos em que por livre e espontânea vontade cutucam a ferida para demorar a sarar. Ou então, insistem em ficar ao lado do tal sofrimento opcional.

Como a maioria dos que frequentam a este blog, escrevo para aliviar o acúmulo de coisas em minha mente. Admito que preciso amadurecer muito como pseudo-poetisa – andei relendo alguns textos meus que me fizeram sentir vontade de vomitar. – mas não vou deixar de rabiscar. Por isso, como minha amiga Ludmila, farei algumas mudanças por aqui. Antes, deixo um texto escrito por mim que faz jus ao nome Contramão Contrariada.

~~~~~~

Analisando um desenho que fiz, notei que estava triste. Nem ao menos havia percebido isso. Os traços estremecidos, o abstrato, o surreal. Só o faço quando estou triste. Mas por que não sinto? Caminhei até meu estojo, e notei que as cores que carregava eram apenas neutras. Mas por que, se sempre carrego cores vivas? Por fim, recebi um telefonema.

- Alô?
- Alô, Jaque? Tenho uma notícia péssima para lhe dar.

A voz de minha amiga estava indiferente. Ela estava falando aquilo da boca para fora, afinal, ela não achava péssima. Achava ótima. Me sentei.

- Ele foi morto.

Naquele instante, uma pontada no coração. Decerto eu já sabia que esse seria o fim dele. Engoli em seco, finalmente raciocinando. O motivo da tristeza surgira depois. E eu sou uma idiota por me sentir assim.

- Quando vai ser o enterro?.. – Perguntei.
- Não haverá enterro. Ele não merece.

Não me senti ofendida. Respirei fundo, colocando a palma da mão direita sobre a testa, como se impedisse uma futura dor de cabeça. Com o telefone preso entre meu ombro esquerdo e ouvido, a mão livre foi tateando do peito para o ventre. E ali ficou.

- Quero um enterro decente para o pai do meu futuro filho.
- Para quê? Ninguém vai, ele é um fugitivo perigoso. E nem você devia ir.
- Me arrisco.
- Ele te estuprou.

Exatamente. Fui vítima de um estupro há cinco meses. Eu, uma aspirante a cartunista sem futuro, fui pega desprevenida às 03:00 quando voltava de uma festa. Brutalmente atacada por um homem armado. Severamente despida. Carinhosamente encarada e amavelmente tocada. Primeiro homem que me olhou nos olhos. Meu primeiro homem. E estranhamente, continuei viva. Única vítima que escapou viva com nenhum hematoma, apenas aqueles do momento do rapto e do ato. Teria sido a preferida?

- Eu sei. E sei do que estou falando. Quero um enterro decente para ele.
- Você nem ao menos sabe seu nome.
- Não preciso. Só sei que ele foi o homem que pôs vida em mim, e que me encarou como se eu fosse alguém e não mais uma artista falida.
- Faça como quiser. O corpo está sendo levado para o necrotério.

Ela desligou. Lágrimas começaram a surgir, e pus-me a chorar. Talvez nunca mais fosse olhada daquele jeito. Após soluços e um desabafo demorado num caderno antigo, levantei-me e fui até o carro. Iria ao necrotério, ver o rosto do dito cujo mais uma vez, e quem sabe, saber seu nome. Eu escolhi assim, portanto, assim será. Mas em meu coração, a eterna pergunta:

Devo continuar seguindo pela contramão?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A carta.

Certo dia escrevi uma carta, sem saber ao certo o destinatário. Simplesmente agarrei uma caneta, e me pus a escrever. A princípio o desconexo proliferava, não via sentido em coisa alguma. Talvez eu simplesmente seja romântica demais devido a minha paixão pelo desajeitado. Mas depois, notei que havia seguido fielmente uma linha de raciocínio. Eis a carta:

"Olá, Estranho (a)! Ou seria Digníssimo (a)?

Certamente já me conhece - ou não -, por isso não vejo necessidade para apresentações. Consequentemente, deve saber o quão receptiva sou, e o quão decepcionada estou. A razão? Não há razão para ter razão. E no final das contas, quem um dia dirá que não existiu razão? Enfim, perder-me em devaneios não nos levará a lugar algum. Qual o problema? Está estranhando minha atitude? Não estranhe, só piora.
Sim, eu devia parar de roer a unha. Foi uma observação a parte que lembrarei em minha nota mental. Além de todos os micróbios existentes, não me fará suprir a falta de alguém que já esteve aí. Ou não. Ou sim. Ou talvez, simplesmente.
Tudo - certamente - vai diminuindo com o passar do tempo. Só que mesmo evitando, ainda sinto sua onipresença em mim, o que é frustrante. Sinto por não ter dito o quão importante era te ter aqui ao meu lado, mesmo que fique a idéia de que eu podia ter esclarecido tudo naquela hora. Afinal, precisava de mais coragem e menos orgulho. E só você manda em mim.
Não devia mentir, mas você me guiou a isso. Não devia sentir culpa, mas você o fez. O engraçado é que nem ao menos sei de qual "você" me refiro. São tantas faces.
Escrevo por ter medo, escrevo por prazer, escrevo por me pedirem. Quando menos espero, sorrio, e a primavera - mesmo estando no inverno - transparesce em meus dentes. Procuro em você a resposta, muitas vezes se recusando a passá-la. Choro, grito, esperneio. Você permanece calado (a).
Por fim, essa carta não possui nenhum objetivo. Sequer a reli, encaro como um rabisco sem sentido - de fato, é. Contudo, serviu como um desabafo de poucas linhas."

Após um tempo de reflexão, descobri. Percebi. Agi: fui atrás das respostas. Reli meu "rabisco", e finalmente, entendi. O tal destinatário abstrato, aquele que trás o mal estar e o bem estar. Aquele que está presente e ausente. Aquele que ajuda e ignora. Aquele cujo a frieza e a sensibilidade andam de mãos dadas: o coração.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Felizes para sempre.

Fitando-o de soslaio ainda como uma criança, ela sorria. No auge de seus 20 anos, não sabia o que fazer, então, simplesmente sorria.
Encarando o nada, mas sentindo aquela atenção voltada para si, ele esboçava um pseudo-sorriso. Pseudo pode significar falso, mas não no contexto. Era sinônimo de timidez.
Estavam cansados. Preferiam não falar.
Um leve toque de mãos. Um leve entrelaçar de dedos.
O sentimento adormecido possuía sono leve.
Finalmente, os olhares se cruzaram. De forma uníssona, proferiram:

- Eu te amo.

Um abraço sofrido, seguido de um roçar de lábios. A despedida era triste, mas para o casal, a eternidade era mais.
Dois corpos caídos.
Para os que pensavam em divórcio há cinco minutos atrás, conseguiram cumprir os votos sagrados com afinco.
E nem a morte conseguiu separá-los.
Ele envolveu-a pelo pescoço.
Ela, abraçou-o pela cintura.
Ambos caminharam na direção de uma forte luz.
Paramédicos tentavam ressucitar os corpos sem vida.
Agora, o casal se amaria e viveria feliz para "todo o sempre".

E eis que termina o conto de fada.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Fiz uma boa ação, fiz uma boa ação!


...e fiquei feliz. Altruísmo ou egoísmo?


Seja lá qual for a resposta, tenho o direito de me sentir bem. Estou atolada de compromissos e obrigações, sem contar os problemas de auto-estima que começo a enfrentar. Sabem, é estranho ser menina após 18 anos de tentativas frustradas. É no mínimo assustador entrar na puberdade tão tarde assim. Só agora começo a me interessar pela aparência, começo a ligar para a opinião alheia, e querem saber? Preferiria ter pulado essa etapa da vida, é muito trabalhosa. Principalmente quando se tem o que falar e a voz não permite, já que a consciência é quem comanda seus atos. Os problemas dos outros sempre são maiores que os meus, ou então, estão ocupados demais sendo felizes para ouvirem meu grito de socorro. Prefiro gritar internamente, e continuar brincando de ser feliz.


A verdade é que boa parte da minha geração brinca disso. Uns saem com seus(suas) respectivos(as) namorados(as)/ficantes, outros desabafam quando os convém e há aqueles que escrevem. Meu lema: cada qual com seu cada qual, jamais vou entupir a cabeça de quem amo com caraminholas. Continuo sorrindo. Complexo de Pollyana? Jamais.


Essa semana em especial, não consegui brincar. Pela primeira vez, pensei na situação que me encontro... analisei. Não vou postar o que concluí, pois não vem ao caso - e se o fizesse, além de estar indo contra meus princípios o desabafo custaria 5 posts ou mais. -, apenas afirmo que não foi legal. Deprimi. E não consegui ser a mesma, até agora. A solidão que antes era minha amiga nos momentos "emuxos", já não me agrada mais. Sinto falta de alguém para compartilhar tudo. Mas mesmo querendo falar, o som não sai. As lágrimas não caem. Me sinto uma fresca.


O que me deixa em pé é a contagem regressiva para SP, e a esperança de ver alguém.


Uma linha só basta para exprimir a alegria que estou tendo este semestre. Mas voltando ao tema principal do post, hoje eu foz uma boa ação. E isso me trouxe um sorriso momentâneo verdadeiro. Já não estava brincando.


Hoje, no Passaporte Juliana, estava comendo meu sanduíche de queijo rotineiro. Permanecia pensativa, não mais com a cabeça em meus problemas, e sim na prova do Sarmento. Me dispersei propositalmente dos meus amigos, já estava mal, mas eles também estavam. Parece que o mal-estar dos jovens é contagioso. Ainda assim eles se divertiam, o que me aborreceu um pouco... mas isso não vem ao caso, sendo puro egoísmo da minha parte. Não me orgulho. Enfim, ao meu lado, uma criança de olhos tristes me encarava. Era magro, e estava visivelmente almejando meu lanche. A princípio pensei em ignorar, mas meu coração mole falou mais alto. Perguntei: está com fome? E ele respondeu com uma afirmação. Não pensei duas vezes e o comprei uma coxinha. Ele me agradeceu. Me senti bem naquele instante.


Talvez o tenha feito com segundas intenções, apenas para me auto-firmar momentaneamente. Talvez esteja comprando Deus aos poucos em troca de um pedacinho do céu. Talvez eu esteja me superestimando. Mas eu não ligo, fiquei feliz simplesmente. Afinal, eu mereço, né? Estou errada por achar isso?


Froid explica.


...fim do post-desabafo. E apenas para não perder o costume:


~~~~


Seu vestido era curto, e aparecia a calcinha rendada.
Isso não significava nada
Já que não passava de uma menina recatada.
Os rapazes assobiavam, quanta ousadia.
Mal sabiam eles que a doce menina era dona de uma harpia.

A harpia tudo via
E não gostava da cantoria
que os rapazes assim proferiam:

"Calcinha rendada
Feito a mão e apertada
Quem dera um dia
Poder arrancá-la
E então sua dona poder sentí-la."

A noite chegou
O dia não.
Infelizmente pra'queles meninos
Restavam apenas a escuridão.

A harpia revoltada
Invadiu-lhes os sonhos
E no meio da alvorada
Arrancou-lhes a visão
Parecia um furacão
Que então os cegava.

A menina do vestido curto
Podia viver tranquila
Já não mais se importava
Em ser observada
Já que os meninos que a admiravam
Tiveram a visão tomada
Por sua doce harpia.


Tayná de Araújo.